A Arte portuguesa é racista.

À CENSURA EM PORTUGAL // LISBOA 05–10–2020

english translation below

https://blackqueer.pt/wp-content/uploads/2020/10/CARTA_REPUDIO_CENSURA.pdf

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A Arte portuguesa é racista.

Não há mais lugar de fala para pessoas racializadas?

Aqui estamos para denunciar atos de censura que ocorreram no dia 05.10, dia da Implantação da República Portuguesa, reforçando a afirmação de que a sociedade portuguesa além de não reconhecer-se ainda exercita práticas racistas.

No dia 04.10 (domingo), o sociológo e artista Rodrigo Ribeiro Saturnino participou, a convite da organização da Feira Gráfica de Lisboa, na conversa online sobre o tema: “Activismo Gráfico — O território da edição como espaço de afirmação de identidade(s)”.

Estavam presentes através do Zoom: Cecil Silveira (Sapata Press), André Teodósio/João Pedro Vale/Nuno Alexandre Ferreira (Mercado das Migalhas), Sílvia Prudêncio, Xavier Almeida e Filipa Valadares(moderação) .

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Nos últimos 15 minutos da conversa, Rodrigo Saturnino aproveitou o tema da conversa e a presença dos artistas João Pedro Vale e Nuno Alexandre para perguntar sobre o processo da criação de uma exposição patente na Stolen Books, em Lisboa. Exposição esta que tem como pano de fundo o filme Race D’ep (1979, dos realizadores Lionel Soukaz e Guy Hocquenghem).

Race D’ep foi um filme censurado na altura do seu lançamento e produzido na tentativa de retratar as formas violentas em que os homossexuais brancos e europeus eram tratados: desde a patologização da sua sexualidade até a sua condenação moral. Era um filme em forma de protesto, com todas as suas limitações analíticas e recortes políticos datados da sociedade europeia do início da década de 1980.

Dentre as obras dos artistas João Pedro Vale e Nuno Alexandre há uma grande fotografia (em que vários homens estão sentandos em tronco nu a simular uma grande ceia, uma comemoração. Esta peça foi alvo de alguma crítica quanto à representação/padronização dos corpos na imagem. Assim, o sociólogo aproveitou a oportunidade para indagar aos autores da referida peça sobre o processo de produção de uma imagem que representava apenas homens brancos e magros dentro do padrão hegemónico. Durante o debate, questões foram esclarecidas e apontamentos foram feitos a respeito dos modos de produção da arte europeia que insiste em manter em estado de repetição alguma hegemonia a respeito, quer aos corpos padronizados, quer à questão racial.

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No dia 05.10, os organizadores da sessão telefonaram ao Rodrigo informando que três dos artistas, nomeadamente André Teodósio, João Pedro Vale e Nuno Alexandre, solicitaram à organização que retirassem do vídeo as suas imagens e falas por terem considerado as intervenções ofensivas, tendo em conta o vasto trabalho artístico que realizam em defesa da comunidade gay.⁸ O pedido também foi feito por alegarem que não houve consentimento para divulgação das imagens através das gravações online do evento.

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Portanto, o vídeo original (visualizado mais de 300 vezes) foi retirado do Youtube. No seu lugar foi colocado um vídeo editado, onde Rodrigo Saturnino faz perguntas e comentários mas não tem repostas. Uma tela preta é colocada no lugar da interação e uma mudez decorre ao longo de minutos, tempo que os solicitantes anteriormente haviam respondido. Rodrigo fala sozinho. Interage virtualmente com o silêncio de uma tela preta. Uma tela de censura. E depois disso, mais de 30 minutos do vídeo original foram apagados. É preciso ver os dois vídeos.

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Esta situação sintomática revela a necessidade da luta antirracista que se tem vindo a fazer em Portugal nestes últimos anos. Rodrigo era a única pessoa racializada na conversa. A única pessoa considerada ali socialmente como “não-branca”.

O que a saída desses artistas do vídeo representa para nós, pessoas pretas? Falta de simpatia com as causas alheias. Falta de respeito com o interveniente. Falta de respeito com o povo preto. Falta de respeito com as pessoas que deram o sangue para construir tudo o que existe neste país chamado Portugal. Simboliza que um preto que fala, um preto que confronta um branco deve falar sozinho. Não tem direito à questionar. Não tem direito a desconcertar o branco. É o exercício literal da não-escuta do outro, o ignorar.

Pafraseando Gayatri Spivak e Jota Mombaça, esta atitude responde a pergunta: Pode um mestiço falar? Pode, desde que seja sozinho. Mostra-nos também que o diálogo racial em Portugal, especialmente no mundo artístico, está estagnado no imaginário da branquitude, do que pode ser considerado artivismo ou arte política. Que a luta anti-racista, que para nós é necessária não só por questões de sobrevivência e existência, para a branquitude não passa de uma atividade banal e unilateral. Trata-se aqui da manuntenção de uma posição de privilégios escamoteada por falsas simpatias que serve, e sempre serviu, para armadilhar o povo negro com artifícios que causam efeitos nocivos e destrutivos para as pessoas que não são amparadas, como disse Jota Mombaça, pela estrutura da branquitude. Onde está a autocrítica da branquitude europeia que se eleva como arauto da equidade de direitos?

Manifestamo-nos aqui com uma tristeza repetida. Um cansaço que cansa mais e mais. Uma tristeza que se repete em cada pessoa branca que se diz aliada mas que sai do debate a ponto de se auto-censurar para evitar o confronto e o diálogo com aquela parte que tão cedo terá o lugar de brilho que a arte portuguesa proporciona a esses artistas brancos.

Nos manifestamos em decepção com a organização da Feira Gráfica de Lisboa que não se posicionou publicamente sobre esta situação. Que se calou também. Que colou essa tela preta como o bloqueio racial que nos separa. Uma violência real ao nosso direito de questionar e ter respostas. Uma decepção que reflete através desse ato de silenciamento do diálogo entre pessoas brancas portuguesas e pessoas racializadas. Vergonha é que o se sente agora. Uma vergonha de compreendermos que existem pessoas brancas que se dizem lutar por uma causa, mas que apenas questionam partes dos sistemas dos quais são importantes, ou seja a parte que lhes toca, como bem disse a Deputada Joacine Katar Moreira sobre o racismo estrutural do feminismo branco.

Não nos esqueçamos que, nesta conjuntura social e política onde a extrema direita sobe desenfreadamente, toda a negação do racismo é racismo. A censura de um debate racial é racismo. A recusa de debater questões raciais com seriedade e transparência é racismo. A manutenção de todo privilégio branco nos espaços que querem promover a equidade racial é racismo.

Perguntamos: Até quando as pessoas negras, as pessoas racializadas que vivem em Portugal serão submissas a este tipo de anulação social? Até quando artistas negres de Portugal precisarão ser os “tokens” para validar interesses políticos e egocêntricos de pessoas brancas? Até quando precisaremos viver nas margens de um sistema desenhado para privilegiar aqueles que já vaivem no alto do seu privilégio? Tão alto que não conseguem ouvir as vozes que tanto tentam instrumentalizar. Até quando?

Hoje, dia 06.10 o vídeo original foi republicado, como se tudo estivesse bem. Ninguém foi notificado. Nenhuma explicação por estes atos. Exigimos que seja feita uma explicação pública à falta de respeito com o Rodrigo Saturnino e à dignidade das pessoas negras e racializadas que vivem no território nacional e que aprenderam a assumir as suas raízes mesmo ao revés social da exclusão e marginalização impostas há séculos em Portugal.

Envergonha-nos saber que ainda existem pessoas que não enxergam seus privilégios e que não aceitam serem questionadas se escondendo com o apoio de instituições que não deveriam ter cor de preferência.

CARTA DE REPÚDIO COLETIVO À CENSURA link:

https://blackqueer.pt/wp-content/uploads/2020/10/CARTA_REPUDIO_CENSURA.pdf

Aqui está um vídeo sobre a situação. (com Legedas e comentário)

Aqui está um vídeo sobre a situação. (*sim Legendas em Português e comentário)

Deixamos aqui o link do video original que foi enviado após a sua publicação pela Feira Gráfica de Lisboa

Deixamos também o link do video que foi editado e substituído pela Feira Gráfica —

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*** (English Translation )

Portuguese art is racist.

CENSORSHIP IN PORTUGAL // LISBON 05–10–2020

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Portuguese art is racist.

Is there no place for racialized people to speak?

We are here to denounce acts of censorship that took place on October 5, the Day of the Implantation of the Portuguese Republic, reinforcing the affirmation that Portuguese society, in addition to not recognizing itself, still exercises racist practices.

On Sunday, October 4th, the sociologist and artist Rodrigo Ribeiro Saturnino participated, at the invitation of the organization of the Lisbon Graphic Fair, in an online conversation on the theme: “Graphic Activism — The territory of the edition as a space for affirmation of identity(s)”.

Cecil Silveira (Sapata Press), André Teodósio/João Pedro Vale/Nuno Alexandre Ferreira (Mercado das Migalhas), Sílvia Prudêncio, Xavier Almeida and Filipa Valadares (moderation) were present through Zoom.

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In the last 15 minutes of the conversation, Rodrigo Saturnino took advantage of the theme and the presence of the artists João Pedro Vale and Nuno Alexandre to ask about the process of creating an exhibition at Stolen Books, in Lisbon. This exhibition is focused on the film Race D’ep (1979, by Lionel Soukaz and Guy Hocquenghem).

Race D’ep was a film censored at the time of its release and produced in an attempt to portray the violent ways in which white and European homosexuals were treated: from the pathologization of their sexuality to their moral condemnation. It was a film in protest form, with all its analytical limitations and political cut-outs dating back to European society in the mid-19th century.

Among the works of the artists João Pedro Vale and Nuno Alexandre there is a great photograph in which several men are sitting naked simulating a great supper, a celebration. This piece was the target of some criticism regarding the representation/standardization of bodies in the image. Thus, the sociologist took the opportunity to ask the authors of this piece about the process of producing an image that represented only white and thin men within the hegemonic pattern. During the debate, questions were clarified and notes were made about the modes of production of European art that insists on maintaining a state of repetition and the reproduction of hegemony regarding both standardized bodies and racial issues.

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On 05.10, the session organizers called Rodrigo to inform that three of the artists, namely André Teodósio, João Pedro Vale and Nuno Alexandre, asked the organization to remove their images and speeches from the video because they considered the interventions offensive, taking into account the vast artistic work they perform in defense of the gay community.⁸ The request was also made because they claimed that there was no consent to the disclosure of the images through the online recordings of the event.

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Therefore, the original video (viewed over 300 times) was taken from Youtube. In its place was placed an edited video, where Rodrigo Saturnino asks questions and comments but has no answers. A black screen is placed in place of the interaction and a mute takes place over minutes time that the obscured participants had previously answered. Rodrigo speaks alone. He interacts virtually with the silence of a black screen. A censorship screen. After that, more than 30 minutes of the original video was erased. Both videos should be witnessed to acknowledge the extent and presence of the change.

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This symptomatic situation reveals the need for the antiracist struggle that has been taking place in Portugal in recent years. Rodrigo was the only racialized person in the conversation. The only person considered there socially as “non-white”.

What does the exit of these artists from the video represent for us black people? Lack of sympathy with other people’s causes. Lack of respect with the individual. Lack of respect with black people. Lack of respect for the people who gave their blood to build everything that exists in this country called Portugal. It symbolizes that a black man who speaks, a black man who confronts a white man, must speak alone. He has no right to question. He has no right to baffle the white man. It’s the literal exercise of not listening to the other, ignoring him.

Phrasing Gayatri Spivak and Jota Mombasa, this attitude answers the question: Can a half-breed speak? Yes, as long as it is alone. It also shows us that racial dialogue in Portugal, especially in the artistic world, is stagnant in the imaginary of whiteness, of what can be considered artivism or political art. That the anti-racist struggle, which for us is necessary — not only for reasons of survival and existence, for whiteness is nothing but a banal and unilateral activity. It is the maintenance of a position of privilege hidden by false sympathies that serves, and has always served, to trap black people with artifices that cause harmful and destructive effects for people who are not supported, as Jota Mombaça said, by the structure of whiteness. Where is the self-criticism of European whiteness that rises up as the herald of equity of rights?

We express ourselves here with repeated sadness. A tiredness that tires more and more. A sadness that is repeated in every white person who claims to be an ally but leaves the debate to the point of self-censorship in order to avoid confrontation and dialogue with that part that so soon will have the place of brilliance that Portuguese art provides to these white artists.

We are disappointed with the organization of the Lisbon Graphic Fair that has not publicly positioned itself on this situation. That it has also kept quiet. That it glued this black canvas as the racial blockade that separates us. A real violence to our right to question and have answers. A disappointment that reflects through this act of silencing the dialogue between white Portuguese people and racialized people. Shame is that you feel it now. A shame that we understand that there are white people who claim to fight for a cause, but who only question parts of the systems of which they find important, that is, the part that touches them, as Ms. Joacine Katar Moreira rightly said about the structural racism of white feminism.

Let us not forget that, in this social and political climate where the extreme right rides rampant, all denial of racism is racism. The censorship of a racial debate is racism. The refusal to debate racial issues seriously and transparently is racism. The maintenance of every white privilege in spaces that want to promote racial equity is racism.

We ask: How long will black, racialized people living in Portugal be subjected to this kind of social annulment? How long will black artists in Portugal need to be the “tokens” to validate white people’s political and self-centered interests? How long will we need to live on the margins of a system designed to privilege those who already walk on top of their privilege? So loud that they can’t hear the voices they try so hard to instrumentalize. Until when?

Today, 06.10 the original video was republished, as if everything was fine. Nobody was notified. No explanation for these acts. We demand a public explanation for the lack of respect with Rodrigo Saturnino and the dignity of black and racialized people who live in the national territory and who have learned to assume their roots even to the social setback of exclusion and marginalization imposed centuries ago in Portugal.

We are ashamed to know that there are still people who do not see their privileges and who do not accept being questioned by hiding with the support of institutions that should not have preference color.

LETTER OF COLLECTIVE REPUDIATION OF CENSORSHIP IN PORTUGAL link:

https://blackqueer.pt/wp-content/uploads/2020/10/CARTA_REPUDIO_CENSURA.pdf

Here is a video about the situation (with English subtitles)

Here is a video about the situation (*in Portuguese):

Here is the link of the original video that was sent after its publication by Feira Gráfica de Lisboa:

Here is the link of the video that was edited and cencored by Feira Gráfica de Lisboa:

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